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Pará pode ser um dos estados mais afetados pela cota da China

A exportação brasileira de carne bovina começou a sentir em julho os efeitos do esgotamento da cota de importação da China, principal destino do produto nacional. Segundo dados da Secex compilados pela Associação Brasileira de Frigoríficos, a ABRAFRIGO, o cenário preocupa especialmente o Pará, que não possui acesso a mercados relevantes como Estados Unidos, Chile, México e União Europeia.

O impacto apareceu nos números de julho. De acordo com dados divulgados pela ABRAFRIGO, com base nas informações da Secex, o Brasil exportou US$ 1,63 bilhão em carne bovina e derivados no mês, queda de 5,6% em comparação com julho do ano anterior. Em volume, foram embarcadas 308,2 mil toneladas, retração de 16%. O movimento foi ainda mais intenso na carne bovina in natura, responsável por 91% das receitas de exportação do setor. As vendas somaram US$ 1,447 bilhão em julho, recuo de 5,7%, enquanto o volume embarcado caiu 17,5%, para 227,89 mil toneladas.

A redução das compras chinesas teve peso importante nesse desempenho. Segundo os dados compilados pela ABRAFRIGO, as receitas obtidas com as vendas de carne bovina in natura para a China recuaram 39,6% em julho, para US$ 529,24 milhões. O volume enviado ao mercado chinês caiu 47,8%, chegando a 82,7 mil toneladas.

Com a cota destinada ao Brasil praticamente esgotada, a preocupação dos exportadores se volta para os meses restantes de 2026. A situação é considerada mais delicada para frigoríficos instalados em estados que contam com poucas alternativas para redirecionar a produção destinada ao mercado chinês.

O Pará está entre os principais casos. Segundo levantamento da ABRAFRIGO, o estado possui o segundo maior rebanho bovino do Brasil, com 25,56 milhões de cabeças, ficando atrás apenas de Mato Grosso, que contabiliza 32,85 milhões. Apesar disso, o Pará ocupa somente a quarta posição nacional em abates e a sétima colocação nas exportações de carne bovina.

Na avaliação apresentada pela ABRAFRIGO, os números mostram que o desempenho exportador paraense está abaixo do potencial representado pelo tamanho do rebanho. A entidade aponta impactos sobre a geração de renda para produtores rurais, frigoríficos e serviços ligados à cadeia produtiva, além de efeitos sobre a arrecadação estadual e nacional.

A restrição chinesa pode ampliar esse quadro durante o segundo semestre. Parte da carne que deixaria de ser enviada à China poderá ser direcionada a outros países ou ao mercado interno, mas, segundo a ABRAFRIGO, não existem alternativas capazes de absorver integralmente o excedente de produção do segundo maior rebanho bovino do país.

A associação também destaca que o Pará, assim como o restante do Brasil, possui reconhecimento como área livre de febre aftosa sem vacinação. Diante disso, a ABRAFRIGO defende que o estado seja tratado como prioridade nas negociações para habilitação aos principais mercados compradores da carne brasileira.

Apesar da queda observada em julho, o desempenho acumulado de 2026 ainda permanece positivo. Segundo dados divulgados pela ABRAFRIGO, entre janeiro e julho o Brasil exportou 2,119 milhões de toneladas de carne bovina e derivados, crescimento de 3,1% sobre o mesmo intervalo de 2025. A receita avançou 26%, alcançando US$ 11,56 bilhões.

A China segue como principal compradora. Nos primeiros sete meses deste ano, o país asiático importou 857,24 mil toneladas, crescimento de 8,5%, e desembolsou US$ 5,346 bilhões, valor 30,95% superior ao registrado no mesmo período do ano passado.

De acordo com a ABRAFRIGO, a China respondeu por 46,26% das receitas totais das exportações do setor entre janeiro e julho. Considerando somente a carne bovina in natura, a participação chinesa chegou a 50,75% das compras em valor e a 49,76% em volume.

Também houve avanço nos preços. O valor médio da carne destinada ao mercado chinês passou de US$ 5.166 por tonelada em 2025 para US$ 6.238 por tonelada em 2026, alta de 20,76%. Segundo a ABRAFRIGO, o movimento reflete os aumentos dos preços do boi gordo no Brasil.

Enquanto as vendas para a China encontram o limite imposto pela cota, outros mercados ampliaram as importações. Os Estados Unidos, segundo maior destino da carne bovina brasileira, elevaram em 48% os gastos com carne in natura entre janeiro e julho, para US$ 1,276 bilhão. Em volume, os embarques aos Estados Unidos cresceram 23,9%, atingindo 209,64 mil toneladas. O preço médio passou de US$ 5.092 por tonelada nos primeiros sete meses de 2025 para US$ 6.086 no mesmo período de 2026, avanço de 19,5%.

Somente em julho, as vendas brasileiras de carne bovina in natura para o mercado americano aumentaram 127,7% em valor, chegando a US$ 160 milhões. O volume cresceu 105,8%, para 26 mil toneladas. Segundo as informações apresentadas pela ABRAFRIGO, as perspectivas para o mercado americano permanecem favoráveis diante de um déficit de abastecimento estimado em 2,64 milhões de toneladas em equivalente carcaça para 2026.

O material da associação também informa que o governo Trump anunciou recentemente um plano para importar 300 mil toneladas de carne bovina livres do imposto de importação de 26,4%. Os critérios para as compras ainda dependem da publicação de uma ordem executiva. Caso o Brasil seja contemplado, a carne brasileira poderá ganhar competitividade e ampliar sua presença naquele mercado.

Essa possibilidade, porém, não alcançaria o Pará enquanto permanecerem as atuais restrições comerciais ao produto originado no estado. Chile e União Europeia aparecem na sequência entre os principais destinos da carne bovina in natura brasileira. Segundo dados divulgados pela ABRAFRIGO, o Chile movimentou US$ 539 milhões em compras entre janeiro e julho de 2026, crescimento de 45,86%. Em volume, foram 88,9 mil toneladas, alta de 30,64%.

Para a União Europeia, a receita aumentou 21,8%, para US$ 480,4 milhões, enquanto o volume avançou 9%, chegando a 52,4 mil toneladas. O preço médio de venda ao bloco europeu subiu 11,7%, para US$ 9.163 por tonelada. O mercado europeu, contudo, também é motivo de atenção. Segundo a ABRAFRIGO, o Brasil poderá enfrentar dificuldades de acesso à União Europeia a partir de setembro caso não haja consenso nas negociações relacionadas à certificação de produção livre de antimicrobianos, exigida pelo bloco.

A Rússia, quinto maior destino da carne bovina brasileira, também ampliou as compras. As receitas aumentaram 43,83%, chegando a US$ 317,4 milhões, enquanto o volume avançou 31%, para 62,34 mil toneladas.

Os números reforçam outro ponto de atenção apontado pela ABRAFRIGO: a concentração das exportações brasileiras em poucos compradores.

Entre janeiro e julho de 2026, China, Estados Unidos, Chile, União Europeia e Rússia foram responsáveis por US$ 7,957 bilhões em aquisições de carne bovina in natura. O valor corresponde a 75,56% das receitas brasileiras com o produto. Em volume, os cinco mercados compraram 1,27 milhão de toneladas, participação de 73,4%.

Segundo a associação, essa dependência ganha relevância diante de guerras, disputas tarifárias e outros problemas geopolíticos capazes de elevar custos e ampliar a instabilidade do mercado internacional. O efeito tende a ser mais sensível em estados que, além da concentração dos destinos, ainda enfrentam barreiras para acessar mercados importantes.

Mesmo com esse cenário, a base de compradores apresentou expansão em boa parte dos destinos. De acordo com os dados divulgados pela ABRAFRIGO, 116 países aumentaram as importações brasileiras de carne bovina entre janeiro e julho, enquanto outros 60 reduziram suas compras.

Para o Pará, entretanto, o avanço em diferentes destinos não elimina o principal desafio colocado pelo esgotamento da cota chinesa. Com um dos maiores rebanhos bovinos do país e acesso restrito a compradores relevantes, a ampliação das habilitações internacionais passa a ganhar ainda mais peso para o desempenho da cadeia pecuária estadual no segundo semestre.

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